Vozes da Ferrovia com Jean Carlos Pejo

Entre trilhos, escolhas e consciência: quando a ferrovia se torna destino

Há trajetórias que não começam na engenharia, nem nas estruturas, nem nas decisões técnicas. Começam antes, na formação do olhar.

Na infância, no modo de enxergar o mundo, nas perguntas que ficam sem resposta e, justamente por isso, insistem em permanecer.

Jean Carlos Pejo construiu sua caminhada em um tempo em que a ferrovia brasileira ainda buscava seu próprio rumo entre modernização, limites institucionais e desafios políticos. Sua história atravessa empresas públicas, programas de desenvolvimento, missões internacionais e momentos de inflexão em que permanecer ou partir deixava de ser apenas uma escolha profissional.

Mas, ao longo de tudo isso, algo permaneceu constante: a convicção de que infraestrutura só faz sentido quando melhora a vida das pessoas.

Nesta conversa, mais do que cargos ou marcos técnicos, emergem reflexões sobre propósito, limites, escolhas e o impacto humano por trás das decisões que moldam o país.

Prepare seu embarque!

1. Antes dos trilhos, quem era o Jean?

Antes da minha caminhada nos trilhos, tive uma infância marcada por muito estudo e dedicação. Sempre busquei estar entre os primeiros da turma, com uma curiosidade constante sobre o que o conhecimento poderia me permitir construir.

Também havia uma forte atenção ao mundo ao redor. Futebol fazia parte da vida, assim como o cotidiano de um estudante que já tentava entender, mesmo sem nomear isso, o que poderia fazer de útil com aquilo que aprendia.

Desde cedo, havia uma inquietação: o desejo de que minha formação tivesse algum sentido para além de mim mesmo. Já naquela época, nos anos 70, quando o Brasil vivia um ciclo de expansão das multinacionais, eu não me via atuando apenas nesse ambiente. Havia uma vontade clara de contribuir com algo voltado ao próprio país.

Esse movimento, ainda difuso, acabou me conduzindo ao estágio na FEPASA. Ali, pela primeira vez, tive contato direto com o universo ferroviário. E foi ali que algo começou a se organizar como caminho.

2. Quando o caminho deixou de ser acaso e virou destino?

O estágio na FEPASA foi decisivo.

A empresa tinha um programa intenso de formação, que nos levava a conhecer diferentes unidades e regiões do estado de São Paulo. Santos, Campinas, Botucatu, Ribeirão Preto — cada lugar revelava não apenas uma operação, mas a relação profunda entre ferrovia e território.

Pouco depois, surgiu a oportunidade de participar de um programa na França, ligado à chegada de novos trens e à introdução de sistemas eletrônicos de controle. Em seguida, uma bolsa de estudos no Japão ampliou ainda mais essa visão.

Ali, não era apenas técnica. Era cultura, disciplina, organização e uma outra forma de pensar a ferrovia.

Quando voltei ao Brasil, a sensação era clara: aquilo não era mais apenas uma experiência profissional. Era um campo de vida.

Foi nesse retorno que comecei a perceber que minha trajetória já tinha direção.

3. Houve dúvidas ao longo do caminho?

Sim. E isso faz parte de qualquer trajetória longa.

Na FEPASA, havia um programa intenso de aprendizado, mas também de grande exposição à complexidade do sistema ferroviário. Era um período de transição tecnológica, com início dos sistemas eletrônicos de controle e diversas frentes de inovação.

Mais tarde, já em posições de maior responsabilidade, vieram os ambientes administrativos e políticos — especialmente na década de 90, um período de forte pressão institucional.

Havia divergências de visão, disputas sobre modelos de gestão, discussões sobre limites entre o público e o privado. Em alguns momentos, isso gerava um ambiente difícil de sustentar.

Foram fases de questionamento real. Não apenas sobre a carreira, mas sobre o próprio ambiente em que se estava atuando.

O que manteve a permanência foi a convicção de que a ferrovia tinha um papel estruturante para o país — e o compromisso com a continuidade dos projetos em andamento, que envolviam não apenas instituições, mas responsabilidades concretas com a sociedade.

4. Onde se sustenta o equilíbrio em meio à pressão?

O equilíbrio vem de três bases principais: propósito, responsabilidade e relações humanas.

Propósito, porque é preciso lembrar constantemente por que se está fazendo aquilo. No meu caso, sempre esteve ligado ao desenvolvimento do país.

Responsabilidade, porque decisões técnicas não são abstratas — elas têm impacto direto na operação, nas pessoas e nos sistemas.

E relações humanas, especialmente família e pessoas próximas, que ajudam a manter o senso de realidade em momentos de maior pressão.

Sem isso, o desgaste tende a se tornar maior do que a própria função.

5. Quando a engenharia deixou de ser técnica e virou gente?

Isso ficou muito claro quando passei a ver os efeitos concretos dos projetos.

A engenharia, no papel, trabalha com números, sistemas e estruturas. Mas, na prática, cada decisão tem um reflexo direto na vida das pessoas.

Ao acompanhar obras e projetos sendo executados, era possível ver algo muito simples e muito forte: empregos sendo gerados, pessoas trabalhando com dignidade, cidades sendo movimentadas por aquilo que estava sendo construído.

Nesse momento, fica evidente que o impacto não é técnico — é social.

A engenharia deixa de ser abstração e passa a ser vida em movimento.

6. O que essa trajetória transformou em você?

Ela trouxe uma percepção mais madura sobre o que realmente importa.

No início, há uma forte concentração no aspecto técnico, na execução, no resultado. Com o tempo, isso evolui para uma compreensão mais ampla: o resultado final não é apenas a obra, mas o efeito que ela produz na sociedade.

Isso muda a forma de enxergar o próprio trabalho.

7. O que a vida pessoal precisou absorver dessa jornada?

A carreira profissional exigiu dedicação intensa. Muitas viagens, jornadas longas, ausência em momentos familiares importantes.

Isso, inevitavelmente, gera impactos na vida pessoal.

Houve, sim, renúncias ao longo do caminho. Tempo que poderia ter sido mais compartilhado com a família, momentos que não voltam.

Mas também houve compreensão e apoio. E isso foi fundamental para que a trajetória pudesse ser sustentada.

8. O que os contrastes internacionais revelaram sobre o Brasil?

As experiências internacionais trouxeram uma percepção clara: a distância tecnológica entre o Brasil e os sistemas ferroviários mais avançados aumentou ao longo do tempo.

Houve períodos em que essa diferença era menor. Em outros, especialmente mais recentes, ela se ampliou.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que o Brasil tem excelência na área de carga ferroviária, com empresas altamente qualificadas e sistemas eficientes.

O grande ponto de atenção está no transporte de passageiros, que não acompanhou o mesmo desenvolvimento.

Esse contraste evidencia não apenas diferenças técnicas, mas escolhas históricas de política pública.

9. O que ainda sustenta a esperança?

A esperança vem, principalmente, das pessoas.

Há uma geração técnica altamente qualificada, com capacidade real de transformação. Há conhecimento acumulado. E há também uma pressão crescente da sociedade por soluções melhores.

Quando esses elementos se encontram — pessoas, técnica e necessidade real — há espaço para mudança.

10. O que você diria ao Jean do início da jornada?

Eu diria que ele estava no caminho certo ao acreditar que as pessoas são o centro de tudo.

Diria também para cuidar mais do equilíbrio pessoal, da vida interior, da família e da saúde emocional. Em alguns momentos, houve excesso de dedicação ao trabalho e pouco espaço para si mesmo.

Falaria sobre a importância de não buscar perfeccionismo em excesso e de reconhecer limites — os próprios e os dos outros.

Mas reforçaria algo essencial: não abrir mão do propósito.

O caminho pela ferrovia, pela infraestrutura e pelo desenvolvimento do país continua sendo um caminho válido.

E, no fim, diria apenas: siga, mas com mais leveza.

Sobre Jean Carlos Pejo

Jean Carlos Pejo é engenheiro mecânico com trajetória consolidada no setor metroferroviário brasileiro, com ampla atuação em projetos de planejamento, modernização e desenvolvimento da infraestrutura ferroviária. Ao longo de sua carreira, ocupou posições de destaque na FEPASA, com participação direta em programas de inovação, gestão e aprimoramento técnico do sistema ferroviário paulista. Secretário Geral da ALAF – Associação Latino-Americana de Ferrovias. Coordenador do Conselho Honorário da Ferrofrente, Frente Nacional pela Volta das Ferrovias.

Sua trajetória também inclui atuação em funções estratégicas na administração pública federal, especialmente na área de mobilidade urbana, contribuindo para políticas e programas voltados ao desenvolvimento dos transportes e da integração logística no país.

Reconhecido por sua visão sistêmica e pela capacidade de articular conhecimento técnico e gestão pública, Jean Pejo enxerga a ferrovia como instrumento estruturante de desenvolvimento nacional, onde cada decisão de infraestrutura ultrapassa o campo técnico e se traduz em impacto direto na economia, no território e na vida das pessoas.

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