
Entre Trilhos e Propósito: Quando Mobilidade se Torna Dignidade
“Não lidamos com fluxo de passageiros, lidamos com dignidade.” – Luis Guilherme Kolle
Luis Guilherme Kolle construiu sua trajetória onde poucos conseguem enxergar além da técnica: no encontro entre engenharia, cidade e vida real. Com quase três décadas dedicadas ao Metrô de São Paulo e atuação em espaços estratégicos como a AEAMESP, que presidiu, sua história nasce de uma vivência comum — o transporte público — e se transforma em propósito.
Antes mesmo de conhecer conceitos como mobilidade urbana ou planejamento, Luis já experimentava, no cotidiano, as distâncias, os tempos perdidos e as desigualdades que moldam as cidades. Foi desse olhar inquieto que surgiu não apenas um engenheiro, mas alguém comprometido em transformar deslocamento em dignidade.
Nesta entrevista, percorremos mais do que trilhos: atravessamos memórias, decisões, dúvidas e convicções de quem entende que cada linha construída é, na verdade, tempo devolvido à vida das pessoas.
Prepare seu embarque.
1. Antes de ser engenheiro, quem era o Luis? Que experiências da infância ou juventude despertaram seu olhar para as cidades e para o transporte?
Antes de ser engenheiro, eu era um menino curioso, observador, que gostava de entender como as coisas funcionavam, mas, sobretudo, como as pessoas se movimentavam pelo mundo.
Desde cedo, minha relação com a cidade passava, literalmente, pelo transporte público. Eu ia e voltava da escola de ônibus, dividindo espaço com trabalhadores, estudantes, gente apressada e gente cansada. Minhas atividades extracurriculares, como aulas de inglês, esportes e passeios pela cidade, também eram feitas usando transporte público. A minha infância não foi vivida no banco de trás de um carro, mas em pé no corredor, segurando no balaústre, olhando pela janela e observando a cidade passar.
Eu não sabia ainda falar em mobilidade urbana, planejamento ou infraestrutura. O que eu via eram cenas simples: o ônibus sempre cheio em horário de pico, a espera no ponto, os deslocamentos longos, a diferença brutal entre quem tinha acesso fácil à cidade e quem dependia de um transporte precário.
A cidade, para mim, sempre foi mais do que cenário. Era um organismo vivo. Lembro de trajetos que pareciam intermináveis e da sensação de que a distância rouba tempo de vida. Acho que ali, em viagens aparentemente banais, nasceu um incômodo muito profundo: por que chegar ao trabalho, à escola ou ao hospital precisava ser tão difícil?
Esse incômodo silencioso, ainda na juventude, foi se transformando em uma espécie de compromisso íntimo. Se eu tivesse a chance, queria trabalhar em algo que tornasse a cidade mais justa, mais acessível. Os trilhos apareceram depois. O desejo de transformar a maneira de chegar e partir veio antes.
2. Existe um momento específico em que você percebeu que sua vida profissional estaria definitivamente ligada aos trilhos? O que sentiu naquele instante?
Houve, sim, um momento de virada. Não foi apenas uma decisão racional, foi quase um clique emocional.
Foi quando, já envolvido com o Metrô de São Paulo, eu entrei numa estação em pleno horário de pico, parei por alguns instantes e, em vez de olhar para a infraestrutura, olhei para os rostos. Milhares de pessoas se movendo com uma fluidez que a superfície da cidade não conseguia oferecer. Famílias, estudantes, trabalhadores, idosos. Todos compartilhando o mesmo espaço, dependendo da mesma engrenagem.
Ali eu entendi, de verdade: é aqui que eu quero ficar, é isso que eu quero fazer.
Senti uma mistura de orgulho, humildade e responsabilidade. Orgulho por participar de algo tão essencial, humildade por saber que ninguém faz isso sozinho e responsabilidade por compreender que um erro técnico não é só um erro. É atraso, cansaço e frustração na vida de alguém.
Foi o momento em que deixei de ver trilhos como apenas um sistema de transporte e passei a enxergá-los como um fio condutor de dignidade urbana.
3. Houve algum episódio que tenha colocado em dúvida sua escolha ou, ao contrário, que tenha reafirmado profundamente seu propósito?
Em uma carreira longa, sobretudo em infraestrutura e setor público, é inevitável enfrentar frustrações. Projetos que demoram a sair, decisões atravessadas por interesses políticos, limitações orçamentárias, críticas injustas.
Houve momentos duros, sim. Situações em que atrasos, entraves burocráticos ou conflitos de visão colocaram em xeque não a engenharia, mas o sistema ao redor dela. É nesses momentos que uma pergunta aparece: vale mesmo a pena tanto esforço?
Mas, curiosamente, o que sempre falou mais alto foram os momentos de reafirmação.
Um episódio marcante foi ver uma nova linha ou estação entrar em operação e, poucos dias depois, perceber o impacto imediato. Gente chegando mais cedo em casa, com mais tempo para a família, comerciantes se instalando ao redor, bairros ganhando uma nova autoestima. Não é exagero dizer que, toda vez que um trecho novo é entregue, um pedaço da dúvida se dissolve.
Então, se em alguns momentos a desilusão já apareceu, ao longo dos anos o propósito tem sido reafirmado. O saldo é muito claro: sim, vale a pena.
4. Liderar é também carregar responsabilidades invisíveis. Em momentos de pressão técnica e política, onde você encontra equilíbrio emocional?
Equilíbrio, para mim, vem de três coisas que caminham juntas: de onde eu vim, do que me move e das pessoas ao meu redor.
Lembrar das minhas raízes, de por que entrei nessa área e do que realmente me motiva me ajuda a voltar para o eixo quando a pressão aumenta. Estou aqui para servir à cidade, não a interesses passageiros, mas aos passageiros.
Também penso muito no propósito. A mobilidade não é um projeto de governo, é um projeto de sociedade. Quando lembro do usuário que acorda cedo para pegar o metrô, muita coisa se reorganiza.
E existem as pessoas. Família, colegas de confiança, amigos que não me veem apenas como engenheiro ou gestor, mas como ser humano. São eles que lembram que, por trás das responsabilidades, existe alguém que também precisa descansar, respirar e rir.
Às vezes o equilíbrio está em algo simples. Uma conversa, um café em silêncio, uma caminhada. Liderar também é aprender a lidar com a pressão sem perder o eixo.
5. Em que momento você percebeu que seu trabalho impactava pessoas reais, histórias reais, famílias reais?
A percepção se torna muito clara quando alguém te agradece por algo que, na sua cabeça, era apenas um projeto.
Lembro de ouvir relatos de pessoas que reduziram pela metade o tempo de deslocamento quando uma nova linha foi aberta, ou de pais que passaram a conseguir chegar a tempo de ver o filho dormir, fazer o dever de casa, participar de um jantar em família. São histórias pequenas no papel, mas gigantes na vida de quem vive.
Em um evento, uma pessoa me contou que, graças à acessibilidade de uma estação, a mãe, cadeirante, voltou a se sentir parte da cidade. Aquilo mexeu muito comigo. Porque ali ficou claro que não lidamos com fluxo de passageiros, lidamos com dignidade.
Esse foi o momento em que a ficha caiu de vez. Engenharia sobre trilhos não é apenas cálculo e norma técnica. É ferramenta de cidadania.
6. Como sua família enxerga sua dedicação à mobilidade urbana? Houve momentos em que foi difícil equilibrar vida pessoal e grandes projetos?
Minha família sempre enxergou a minha dedicação com uma mistura de orgulho e preocupação.
Orgulho por saber que eu trabalho em algo que melhora a vida de milhões de pessoas. E preocupação porque grandes projetos exigem muita dedicação, tempo, energia e presença.
Sim, houve momentos difíceis. Madrugadas de trabalho, reuniões intermináveis, decisões que não esperam o horário comercial. É impossível passar por isso sem, em algum momento, se questionar se está entregando demais ao trabalho e de menos para quem está ao seu lado.
Com o tempo, fui entendendo que não existe equilíbrio perfeito. Existe um ajuste constante.
Mas uma certeza me acompanha. Sem o apoio da família, essa trajetória teria sido muito mais pesada. Cada entrega profissional também é um esforço compartilhado com quem está em casa.
7. Ao assumir a presidência da AEAMESP, o que mais mudou dentro de você: o engenheiro, o gestor ou o ser humano?
Os três mudaram, mas, se eu tiver que escolher, diria que foi o ser humano.
Como engenheiro, passei a ter uma visão mais ampla do sistema, entendendo melhor a integração entre os diferentes atores e a necessidade de constante atualização.
Como gestor, fui desafiado a articular interesses, mediar conflitos, representar uma entidade e construir pontes entre o setor público, privado, a academia e a sociedade. Aprendi a ouvir mais e a me comunicar melhor.
Mas foi como pessoa que senti a maior transformação. A experiência trouxe um senso mais profundo de serviço, ampliou a empatia e reforçou a responsabilidade de ser exemplo, não de forma perfeita, mas coerente.
Assumir essa posição foi menos sobre status e mais sobre compromisso. E compromisso mexe com a essência.
8. Se pudesse conversar hoje com o jovem Luis no início da carreira, o que diria sobre propósito, persistência e integridade?
Eu diria que o caminho não vai ser linear. Vai ter frustração, momentos de dúvida e aquela sensação de estar andando em círculos. Mas propósito não é cargo, é direção. Se você continuar trabalhando para tornar a cidade mais humana, estará no lugar certo.
Também diria para ter paciência. Grandes obras levam tempo e grandes mudanças levam ainda mais. Nem tudo que você plantar vai florescer na sua gestão ou na sua presença. Persistir, mesmo sem reconhecimento imediato, faz parte do processo. No fim, o importante é que as pessoas cheguem melhor ao seu destino.
E, principalmente, eu diria para não abrir mão da integridade. Sempre vão existir atalhos e justificativas que parecem razoáveis, mas têm um custo alto. A maior obra que você constrói é a sua reputação. Quando tudo estiver confuso, escolha aquilo que você teria orgulho de ver contado sobre você.
E talvez acrescentasse uma coisa simples. Confie mais no seu caminho. Ele pode ser difícil, mas faz sentido.
9. Em um país onde grandes projetos enfrentam atrasos e desafios estruturais, o que mantém viva sua esperança no futuro da mobilidade brasileira?
O que mantém minha esperança viva passa por três pontos que, para mim, são muito claros.
Primeiro, as pessoas. Existe uma geração de profissionais, pesquisadores, técnicos e estudantes profundamente comprometidos com a mobilidade, discutindo cidade, inclusão e sustentabilidade com seriedade.
Depois, a capacidade técnica. O Brasil sabe fazer. Temos experiências bem-sucedidas, sistemas reconhecidos e conhecimento acumulado. Quando há um mínimo de organização, os resultados aparecem.
E também a própria realidade das cidades. A mobilidade deixou de ser escolha. Virou necessidade. A pressão social, as questões ambientais e os limites do modelo atual empurram as cidades para enfrentar esse tema.
Minha esperança não é ingênua. Ela vem do que eu já vi acontecer na prática. Quando técnica, vontade política e sociedade caminham juntas, mesmo que por pouco tempo, a transformação acontece.
10. Quando você imagina o legado da sua trajetória, ele está mais ligado às obras que ajudou a estruturar ou às pessoas que formou e inspirou ao longo do caminho?
O legado material é importante. Linhas, estações, projetos e estudos ficam registrados e fazem parte da história.
Mas, sendo sincero, o que mais me importa está nas pessoas.
Nos profissionais que, de alguma forma, foram impactados por uma conversa, uma decisão ou um exemplo. Nos jovens que encontraram nos trilhos um caminho de propósito. Nos colegas que passaram a olhar a mobilidade como uma missão, não apenas como um desafio técnico.
As obras mudam com o tempo. São ampliadas, reformadas, substituídas. As pessoas seguem adiante, levando consigo valores e visão de mundo.
Se uma parte do que vivi continuar presente em quem pensa a cidade com responsabilidade, em quem não negocia integridade e em quem sente orgulho do que faz, então o legado estará cumprido. Nos trilhos, sim, mas principalmente nas pessoas.
Sobre Luis Guilherme Kolle
Luis Guilherme Kolle é engenheiro com trajetória consolidada na mobilidade urbana sobre trilhos, com quase três décadas de atuação no Metrô de São Paulo. Ao longo de sua carreira, participou de projetos estruturantes e ocupou posições estratégicas, incluindo a presidência da AEAMESP e atuação no Conselho das Cidades.
Sua relação com o transporte público começou ainda na infância e evoluiu para um compromisso profissional pautado pela melhoria da qualidade de vida urbana. Reconhecido por sua visão sistêmica, integridade e capacidade de articulação entre técnica e gestão, Luis enxerga a mobilidade como instrumento de transformação social, onde cada linha representa mais do que infraestrutura: representa tempo, acesso e dignidade para milhões de pessoas. Cada linha construída é tempo devolvido à vida.