Lugar de golpista é atrás das grades

José Manoel Ferreira Gonçalves*

O ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro e secretário exonerado de segurança pública do Distrito Federal voltou ao país e terá que se explicar diante das autoridades brasileiras.

Ele próprio sabia que seria preso ao desembarcar, após uma viagem aos Estados Unidos que coincidiu com os lamentáveis acontecimentos do primeiro domingo de janeiro, quando uma tentativa frustrada de golpe deixou um rastro de destruição em Brasília, desonrando inclusive a cultura e a identidade do
brasileiro, ao causar danos irreparáveis a obras de arte consagradas e inestimáveis.

Anderson Torres tornou-se assim o mais ilustre detido do presídio da Papuda, para onde foi encaminhada parte da turba terrorista que depredou o patrimônio público, tão certa da impunidade que a maioria filmou os atos antidemocráticos que assombraram o mundo.

No dia dos ataques aos prédios do Supremo, do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto, em momento tão crítico para a nação, Torres estava de férias na mesma cidade para onde fugiu Bolsonaro, seu chefe até o ano passado. Nenhum deles condenou os atos de terrorismo.

Essa proximidade com o ex-presidente – alijado do posto pela vontade da maioria nas urnas – é no mínimo uma desfaçatez. Mas os indícios de que essa sintonia entre ambos na verdade faça parte de um plano golpista são reais e deverão ser investigados. A existência de uma minuta de decreto contestando
o resultado das eleições sinaliza que as ações criminosas podem ser a face visível de um arquitetado crime contra o Estado Democrático de Direito.

Num momento em que se inicia um novo governo e o país busca, após quatro anos de ódio, a pacificação e a redução das desigualdades que se acumularam nesse período sombrio, é motivo de preocupação e indignação que uma tentativa de golpe tenha sido perpetrada, de forma tão virulenta, e com a conivência de quem deveria zelar pela segurança pública.

Espera-se que as investigações nos levem a conhecer não apenas os acéfalos agressores que não aceitam a derrocada da via autoritária e hostil, representada pelo antigo governo, mas também os financiadores de acampamentos que duraram mais de dois meses, lugares onde, com a placidez das autoridades, foi fermentado o assalto às sedes dos Três Poderes.

A punição para quem desafia a democracia deve ser enérgica e exemplar. Não há caminho possível para o país e para os brasileiros que não esteja inserido no âmbito da Democracia.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é engenheiro, escritor e presidente da FerroFrente, Frente Nacional pela Volta das Ferrovias.

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