Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
O anúncio da criação da MRS Hidrovias, com investimento de R$ 1,5 bilhão em um corredor hidroviário entre São Simão (GO) e Pederneiras (SP), não deve ser visto apenas como um movimento empresarial. É, sobretudo, um sintoma daquilo que falta ao país: uma política pública de logística integrada que coloque hidrovias e ferrovias no centro da matriz de transportes.
A iniciativa da empresa é legítima e racional. Mas é reveladora. Quando uma operadora ferroviária precisa avançar sobre o setor hidroviário para viabilizar rotas mais eficientes, estamos diante da prova de que o Estado brasileiro continua ausente na condução de um projeto nacional para o transporte de cargas.
O Brasil permanece preso a um modelo rodoviário exausto, caro, poluente e ultrapassado. Quase 90% das cargas circulam por caminhões, enquanto ferrovias e hidrovias — modais mais eficientes, menos poluentes e energeticamente superiores — seguem relegadas a papéis secundários.
Essa dependência não é consequência natural: é fruto de escolhas políticas equivocadas e de décadas de omissões, como demonstrado no estudo Despoluindo Sobre Trilhos, que documenta o impacto econômico, ambiental e social dessa distorção.
A entrada da MRS no setor hidroviário é mais um capítulo de um padrão antigo: a iniciativa privada tentando preencher lacunas deixadas pelo poder público. Não há problema nisso. O problema é que isso não pode ser a regra. O desenvolvimento logístico de um país não pode depender do acaso de investimentos isolados, desarticulados e guiados por interesses pontuais.
Enquanto isso, continuamos celebrando feitos localizados como substitutos de uma estratégia nacional que simplesmente não existe.
Hidrovias e ferrovias não podem continuar sendo exceções. Precisam ser tratadas como infraestrutura estruturante, com metas de expansão, integração real entre modais e planejamento de longo prazo. Só assim será possível reduzir emissões, diminuir custos logísticos, dar competitividade ao país e liberar a economia do cativeiro rodoviário.
O projeto da MRS, sozinho, não transforma a realidade. Ele apenas escancara o que falta: vontade política, visão estratégica e compromisso público com a modernização logística.
O Brasil precisa de intermodalidade por decisão de Estado — não por iniciativa pontual de empresas. Até que isso aconteça, seguiremos remendando um sistema pensado para o passado, enquanto o futuro já pede outro caminho.
*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.