Ferrovia Transnordestina e seus impactos

José Manoel Ferreira Gonçalves, da FerroFrente, analisa os impactos da Transnordestina na logística e no desenvolvimento regional. Entenda neste artigo!

PorRedação NT Expo-15 de agosto, 2025

Com trilhos serpenteando entre o cerrado piauiense e os portos estratégicos do Nordeste, a Ferrovia Nova Transnordestina (EF-232 e EF-116) promete redesenhar a geografia econômica de uma das regiões mais desafiadas — e promissoras — do país. 

Ao todo são 1.753 km de extensão planejada, em bitola mista, conectando Eliseu Martins (PI) ao Porto de Pecém (CE), com ramificações em direção ao Porto de Suape (PE). 

O Governo Federal mira 2026 como data de conclusão da obra, que, no futuro, deverá se integrar à Ferrovia Norte-Sul (EF-151), em Porto Franco (MA), criando um corredor logístico de grandes proporções.

Para entender melhor os impactos da Transnordestina e o que ela representa para o presente e o futuro da infraestrutura nacional, ouvimos o Dr. José Manoel Ferreira Gonçalves, presidente da Frente Nacional pela Volta das Ferrovias (FerroFrente).

Leia a seguir as opiniões do especialista!

Além dos trilhos: que modelo de país queremos construir?

“A Transnordestina é importante, sim, mas precisa estar conectada a outras ferrovias. O Brasil precisa de um projeto nacional”, alerta Gonçalves. 

Para ele, não basta ligar portos ao interior para escoar commodities. É preciso pensar em uma rede integrada, que una o país de norte a sul, leste a oeste, transportando também os bens produzidos pela indústria nacional. 

“Isso sim gera movimento econômico e distribui oportunidades”, reforça o presidente da FerroFrente.

Uma rota inédita: Eliseu Martins–Pecém e o novo fluxo do agronegócio

A Transnordestina inaugura uma conexão inédita entre o coração agrícola do Piauí e o litoral cearense. A expectativa é de que o agronegócio ganhe impulso, sobretudo nas novas fronteiras agrícolas dos cerrados piauienses e pernambucanos. 

“Será um vetor efetivo para expansão. Reduz custos logísticos e racionaliza o escoamento”, afirma Gonçalves. 

Mas ele ressalta: “É preciso integração com rodovias e outros modais. Não podemos repetir o erro da hegemonia rodoviária”.

Do campo ao porto: competitividade ganha trilhos

Os benefícios logísticos mais imediatos incluem a redução de custos, maior previsibilidade e mais competitividade para os produtores nordestinos. 

“É uma infraestrutura que cria condições para um novo ciclo de desenvolvimento produtivo”, diz Gonçalves. 

A ferrovia deve dar novo fôlego a cadeias como a da soja, a do milho, a do algodão e de outras culturas de exportação, que antes enfrentavam obstáculos logísticos severos.

Menos fumaça, mais eficiência: o impacto ambiental da mudança de modal

Hoje, mais de 80% das cargas brasileiras circulam sobre pneus. “No caso das commodities, o índice é ainda maior”, lamenta o representante da FerroFrente.

A substituição parcial por trilhos, segundo ele, é um passo urgente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e ampliar a eficiência energética da matriz logística nacional. 

“É uma agenda ambiental e estratégica. Precisamos de políticas de Estado, não só respostas regionais”, afirma com firmeza.

Interiorizar é integrar: desenvolvimento além do litoral

A Transnordestina é mais do que logística — é um projeto de interiorização do desenvolvimento. 

“Ela abre um campo de progresso gigantesco. Não faz sentido manter todo o dinamismo econômico no litoral. Temos que integrar o semiárido, dar protagonismo ao interior”, defende Gonçalves. 

Sendo assim, a ferrovia é, para ele, uma ponte entre os potenciais econômicos subutilizados e os grandes mercados nacionais e internacionais.

Investimento com responsabilidade: o papel dos fundos regionais

Viabilizada com recursos do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) e do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor), a obra traz consigo uma lição de governança. 

“Esses fundos são essenciais, mas é preciso transparência. Editais limpos. Evitar investimentos cruzados sem clareza. E, principalmente, planejar a reindustrialização ferroviária no país”, aponta o especialista.

Ele sugere instalar fábricas de vagões e componentes em regiões estratégicas — inclusive como resposta à concorrência chinesa.

Conexão nacional: da ferrovia transnordestina à espinha dorsal logística

A ferrovia precisa se integrar. “A Transnordestina deve dialogar com a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), a Norte-Sul e a futura Ferrogrão. Mas mais do que conexões físicas, precisamos de um sistema integrado — que articule modais, tecnologia e gestão com visão de desenvolvimento nacional”, afirma Gonçalves.

O presidente da FerroFrente acredita que um corredor logístico robusto, como o país demanda, nasce da união entre projetos locais e estratégias nacionais.

FerroFrente em ação: mais do que vigiar, propor

A atuação da FerroFrente tem sido técnica e vigilante. Gonçalves afirma que a entidade acompanha a Transnordestina com foco no longo prazo. 

“Avaliamos contratos, apontamos riscos, propomos caminhos. Defendemos a interconectividade e a industrialização ferroviária nacional. Tudo com base em dados e compromisso com o interesse público”, resume. 

Esperança sobre trilhos: a mensagem de um ferroviário ao Nordeste

Ao final da entrevista, José Manoel deixa um recado firme: “A Ferrovia Transnordestina é símbolo de um novo Brasil possível. Mas não podemos esperar milagres. É projeto de Estado, não de governo. O retorno é estruturante, exige visão, continuidade e coragem”.

Ele conclui com esperança: “Se conduzido com integridade democrática, respeito à soberania e foco no interesse público, esse projeto será um poderoso instrumento de redução da pobreza e geração de prosperidade. Para os brasileiros — e para os brasileirinhos e brasileirinhas que ainda vão nascer.”

Enquanto os trilhos avançam no sertão, avança também a expectativa de um país mais conectado, mais justo e mais competitivo. Assim a Transnordestina é um sinal de que o Brasil pode fazer escolhas estruturais e olhar para o futuro com lucidez e compromisso.

José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós doutorado em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, Portugal; Engenheiro Civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; Jornalista formado pela Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero; Bacharel em Direito pela Universidade Santa Cecília; e Cientista Político pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo; Doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Metodista de Piracicaba; Mestrado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Itajubá e Especialização em Geoprocessamento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É Membro da Academia Mackenzista de Letras, ocupando a cadeira nº 13, cujo patrono é Christiano Stockler das Neves.
Fundador e presidente da ONG FerroFrente e da Associação Guarujá Viva, José Manoel é um defensor das ferrovias e do desenvolvimento sustentável. Desenvolveu o Portal SOS Planeta e integra conselhos voltados à engenharia e mobilidade urbana focada na democracia e sustentabilidade.
Autor de 16 livros, José Manoel tem publicações abrangendo suas especialidades, incluindo o papel das ferrovias no sistema de transportes e crônicas sobre a política do Guarujá. Atuou como professor, reportou para a Jovem Pan e desempenhou papéis relevantes na UNIP, Secretaria Estadual do Meio Ambiente e entidades de engenharia, arquitetura e agronomia, reforçando seu compromisso com a educação e o meio ambiente.

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