Caminho livre para o nefasto monopólio dos trilhos

José Manoel Ferreira Gonçalves*

Os ventos democráticos que voltam a soprar em Brasília parecem estar longe de atingir os trilhos do país. Uma movimentação do mercado financeiro aparentemente descolada do cenário das ferrovias poderá comprometer seriamente o já enevoado futuro do setor.

A compra de 6,5% das ações da Vale pelo grupo Cosan pegou os analistas de surpresa. A transação milionária foi justificada, por parte do comprador, como uma oportunidade de atender aos princípios ESG. Na verdade, há vários negócios sobrepostos da Vale e da Cosan. A situação mais alarmante para a livre concorrência é a das ferrovias. Juntas, Vale e a Rumo, empresa de logística da Cosan, dominam 99% dos trilhos no país.

Os desdobramentos desse virtual monopólio que se desenha com a junção das companhias serão catastróficos para o transporte ferroviário. Hoje, a realidade já é desfavorável para quem sonha em ter as ferrovias como fator de integração nacional, não apenas no transporte de cargas, mas também no de passageiros.

Grãos e minérios são praticamente tudo o que o país se dedica a transportar por meio da malha ferroviária, situação que tende a se agravar se levada adiante a referida compra das ações ordinárias, com direito a voto, anunciada este mês.

Em nome da FerroFrente, notificamos o CADE sobre as consequências irremediavelmente adversas à ordem econômica de um eventual domínio de mercado que venha a ser efetivado, a partir do maior poder de decisão de Rumo e Vale, juntas, sobre suas operações.

O governo Lula 3 terá vários desafios pela frente. A recuperação das ferrovias, a partir de políticas públicas voltadas para um interesse amplo e às necessidades de toda a nação, precisa estar entre essas prioridades.

Evitar a concentração de poder sobre o futuro de nossos trilhos seria uma boa demonstração de que tomaremos a direção correta nos próximos anos.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é presidente da FerroFrente, Frente Nacional pela Volta das Ferrovias. é engenheiro com pós-doutorado em sustentabilidade e transportes pela Universidade de Lisboa. É escritor, autor de várias obras sobre ferrovias.

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